A ambientalização dos conflitos sociais no centro-oeste brasileiro: desenvolvimento rural, violência simbólica ea conservação da natureza

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A ambientalização dos conflitos sociais no centro-oeste brasileiro: desenvolvimento rural, violência simbólica ea conservação da natureza
  Espacio Abierto Cuaderno Venezolano de Sociología ISSN 1315-0006 / Depósito legal pp 199202ZU44 Vol. 18 No. 4 (octubre-diciembre, 2009): 677 - 693  A   ambientalização  dos conflitos sociais nocentro-oeste brasileiro: desenvolvimentorural, violência simbólica e a conservaçãoda natureza  Ambientalización  de los conflictos sociales en elcentro-oeste brasilero: desarrollo rural, violenciasimbólica y la conservación de la naturaleza  Lorena Cândido Fleury* Jalcione Almeida** Resumen El uso y apropiación del espacio cultural y biogeográfico localizadoen el Centro-Oeste brasilero ha sido históricamente fuente de con-flictos.Actualmente,nuevosagentessocialeshanreclamadopartici-pación en el proceso de ocupación de este espacio, dando srcen anuevosconflictos,ahoraentendidoscomoambientales,queactuali-zan la disputa por la determinación del uso y apropiación de los ele-mentosnaturales.Desdelallegadadenuevosinmigrantes,enladé-cada de 1970, fueron construidos sentidos atribuidos a identidadessociales que chocan con comportamientos, características y valoresasociadosalapoblaciónlocal.Lacontraposiciónentreestosdosper-files se hace sentir, sea de forma sutil o explicita, sugiriendo ser esteunaspectoquedemarcalaconfiguracióndelasidentidadessociales y consecuentemente, de los conflictos entre las demandas, lógicas y expectativas de los agentes. En este artículo se pretende discutir laconfiguracióndelperfilde“gaúchos”e“goianos”enelCentro-Oeste,con sus enfrentamientos y acomodos históricamente construidos, y los reajustes contemporáneos asociados a la incorporación de la“cuestión ambiental” a las dinámicas locales. Palabras clave:  Conflictos ambientales, violencia simbólica, iden-tidades sociales. *  UniversidadeFederaldoRioGrandedoSulUFRGS.PortoAlegre,Brasil.E-mail:lorena.fleury@ufrgs.br **  CNPq. Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Brasil. E-mail: jal@ufrgs.brRecibido: 20-06-09/ Aceptado: 07-09-09   The  environmentalization  of social conflictsin the Central Western region of Brazil: ruraldevelopment, symbolic violence and theconservation of nature  Abstract Use and appropriation of the cultural space biogeographically lo-cated in the Central Western region of Brazil has historically been asource of conflict. Currently, new social agents have demanded par-ticipation in occupying that space, giving rise to new conflicts, now understoodasenvironmental,whichupdatethedisputebydetermin-ing the way in which natural elements are used and appropriated.Since the arrival of new immigrants in the 1970s, meanings attrib-uted to social identities have been built that clash with behaviors,characteristics, and values associated with the local population.Oppositionbetweenthesetwoprofilesisfeltsometimessubtly,othertimes explicitly, suggesting that this aspect guides the configurationof social identities and, as a result, of the conflicts between theagents’ demands, logic and expectations. The aim of this article is todiscussconfigurationoftheprofileof“  gaúchos ”and“  goianos ”intheCentral Western region, with their historically constructed clashesand accommodations, and contemporary readjustments associated with incorporating the “environmental issue” into local dynamics. Key words:  Environmental conflicts, symbolic violence, socialidentities. Introdução O uso e apropriação do espaço cultural e biogeograficamente localizadono Centro-Oeste brasileiro tem sido historicamente fonte de conflitos sobre ossentidosevocaçõesdeseuselementosnaturais.Assiméque,empoucomaisde50anos,noperíodode1940a1990,estaregiãopassounoimaginárionacionalde “sustentáculo de territórios indígenas” a “vazio demográfico”, de “terras im-produtivas” a “grande celeiro do país”. Contemporaneamente, devido aos im-pactos sobre o meio natural decorrentes do sistema agrário voltado para a pro-dução de  commodities , aliados à relevância atual da questão ambiental, novosagentes sociais – tais como organizações não-governamentais de cunho ambi- en foco: medio ambiente, sociedad y desarrollo sustentable678 / espacio abierto vol. 18 nº 4 (octubre-diciembre, 2009): 677 - 693  entalista, órgãos de governo voltados ao meio ambiente e instituições de pes-quisa – têm reclamado participação no processo de ocupação deste espaço,dandoorigemanovosconflitos,agoraentendidoscomoambientais,queatua-lizam a disputa pela determinação da forma de seu uso e apropriação.Ilustrativodessecontextoéoembateentreosimigrantesprovenientesdaregião Sul do país, localmente conhecidos como “gaúchos” e cuja ocupação doCentro-Oeste foi promovida por programas de governo voltados à tecnificaçãodaagriculturaqueosconsideraramcomoosagentesdodesenvolvimentodese- jável para a região, e “goianos”, “mato-grossenses” e “sul-mato-grossenses”,nascidos nos estados que compõem o Centro-Oeste e alijados do processo dedesenvolvimento conduzido pelo governo por serem considerados inaptos aomodeloaserimplantado.Desdeachegadadessesimigrantesatéosdiasatuaisforam sendo construídos posturas, perfis e sentidos atribuídos ao “ser gaúcho”e, em oposição, outros comportamentos, características e valores foram sendoassociados à população local e identificados como um perfil dos agentes nasci-dosnoCentro-Oeste,deformaqueacontraposiçãoentreestesdoisperfissefazsentir, ora de forma velada, ora explícita, sugerindo ser este um aspecto baliza-dornaconfiguraçãodasidentidadessociaise,emdecorrência,dosconflitosen-tre as demandas, lógicas e expectativas dos agentes. Abaseempíricadepesquisaquesustentaasanálisescontidasnestearti-goresideementrevistascom51agentesatuantesnoentornodeumaunidadede conservação ambiental, o Parque Nacional das Emas, situado entre os mu-nicípios de Mineiros, Chapadão do Céu e Serranópolis, em Goiás, Costa Rica,em Mato Grosso do Sul, e Alto Taquari, em Mato Grosso. Neste artigo pre-tende-se discutir a configuração do perfil de “gaúchos” e “goianos” 1 no Cen-  a ambientalização dos conflitos sociais no centro-oeste brasileiro: desenvolvimento rural, violência simbólica e a conservação da natureza l. fleury y j. almeida 679 1 Ostermos  gaúchos e  goianos sãoutilizadosaquinãonecessariamentecomouma definição precisa dos estados de procedência dos agentes, mas comoemblemas de sua situação social. Em todo Centro-Oeste costuma-se fazerreferência aos imigrantes provenientes dos estados do Rio Grande do Sul,Santa Catarina, Paraná e até mesmo São Paulo genericamente como  gaú-chos , independentemente do estado em que nasceram. Esses imigrantes,em sua maioria, se estabilizaram no Centro-Oeste como produtores degrãos. Quanto aos agentes nascidos no Centro-Oeste, localmente faz-se re-ferência de forma distinta entre goianos, mato-grossenses e sul-mato-grossenses. Contudo, considerando-se que três dos cinco municípios incluí-dosnessapesquisasesituamnoestadodeGoiás,equeentreosagentesper-tencentes a estes três estados há uma identificação cultural e de sistemasprodutivos – geralmente a pecuária extensiva – opta-se nessa pesquisa porreuni-los genericamente no termo  goianos , fazendo-se a ressalva de queesta é uma decisão dos pesquisadores autores deste artigo e que, em deter-  tro-Oeste,comseusembateseacomodaçõeshistoricamenteconstruídos,eosreajustes contemporâneos associados à incorporação da “questão ambiental”às dinâmicas locais. Gaúchos  versus  Goianos : um embate silencioso  Ascaracterísticasatribuídasàquelesaquemseconvencionouchamardegaúchosgeralmentevincula-osànoçãodetrabalhoedetecnologia.Ashistóri-asdestesimigrantessãonarradasconstantementeressaltando-seacapacida-de que estes tiveram de abandonar uma situação desfavorável nos estados doSul do Brasil e, a partir do  nada , construir o patrimônio que exibem hoje: Faltou espaço mesmo lá no Sul, era família grande, não conseguia vivermais sobre a terra, éramos nove irmãos. Aí apareceu esse assentamento,meu pai e o irmão dele resolveram encarar, foram pra lá  , não tinha nem ci-dadenemnada ,foramumdostrêsprimeirosmoradoresdaregiãodeÁguaBoa. E aí começaram do nada. Queimou a mudança toda na estrada, nemmóvelelesnãotinhampraficar,quandochegaram...Dápraescreverumli- vro. (produtor rural, gaúcho, Mineiros, grifos dos autores). Neste trecho, dois aspectos principais chamam atenção. Em primeiro lu-gar,percebe-sequeobiomacaracterísticodoCentro-Oeste,oCerrado,apare-ce frequentemente como um  deserto , um  vazio , um lugar em que não havia  nada . Em suma, um lugar onde não eram encontrados os objetos de referên-cia,seapresentandocomoapróprianão-familiaridade,aquiloquefugiaaoatéentão conhecido. Acrescenta-se ainda a imagem de que estes gaúchos foram“chamadosaoCerrado”porqueesteaindaeraum“lugarasefazer”,comopro-pagavamaspolíticaspúblicasdeincentivoàsuacolonização,maisconsistentese torna a ideia do que até então existia como um deserto, um vazio. Nessecontexto, parece explícita a incoerência reclamada por muitos quando hoje sedemanda, desses mesmos gaúchos, que se conserve o Cerrado, que se con-serve o que eles acostumaram a representar como não sendo nada, algo a sersubstituído. Ainda, nota-se também que o sofrimento pelo qual passaram ao chegaraodesconhecidoérecordadoportodos,mesmoporaquelesquenãovivencia-ramestaépoca,sendopermeadoporoposiçõesentreoSul–ondetinha tudo –e o Centro-Oeste, ainda a se fazer. As adversidades impostas pelo Cerrado,pelafaltadeinfraestrutura,pelaausênciadofamiliarsãosemprerepetidas,ea en foco: medio ambiente, sociedad y desarrollo sustentable680 / espacio abierto vol. 18 nº 4 (octubre-diciembre, 2009): 677 - 693 minados contextos, poderá incluir também sujeitos provenientes dos esta-dos de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.  capacidade de superá-las se torna um mérito coletivo atribuído aos gaúchos.Braun (1999), ao estudar as representações do ambiente em comunidades deimigrantes alemães no Rio Grande do Sul, observou um discurso bastante se-melhante, e comentou: [...]oquefoinarrado–rememorandoumpassadosofridoetambémglorio-so – era o que poderia ser dito e o que interessava dizer. Posso compreen-der,pois,quedescreveramatanativacomoumlugarinóspitoeinapropria-do para os imigrantes recém-chegados, constituiu-se em uma compreen-são instituída em um regime de verdade, aceito como discurso verdadeiro(Braun, 1999:71).  Assim, a mata nativa do Rio Grande do Sul parece estar para os imigran-tes alemães como o Cerrado está para os imigrantes gaúchos: o ambientecomo símbolo da ruptura com o familiar e contato com o desconhecido. Essaruptura teve que ser enfrentada devido às impossibilidades de permanênciaemseuslocaisdeorigem,enãoécoincidênciaaconcordânciaentreosrelatosapreendidos por Braun (1999) e as narrativas dos gaúchos no Centro-Oeste.Defato,ambososcasossereferemaumamesmadinâmica,correntementein-corporada por herança familiar na trajetória dos agentes, como demonstra oilustrativo relato: [...]meuavôveiodePortugal,em1912eleveioparacá,comquatroanosdeidade. Então a família toda é de lá, já com tradição de agricultura, e foramparar ali no estado de São Paulo. Em São Paulo migraram duas vezes e vie-ramtrabalharempropriedadescomotrabalhadoresrurais.Ecomodesen- volvimento lá no Paraná, como seriam agora essas novas fronteiras, a novafronteira era o Paraná, então eles foram para o norte do Paraná. E lá conse-guiramadquirirterras,porqueeramaisbarato,né?Entãoagentejávemdeumatradição.AltoTaquari,quehojeestáestável,támetocandodaqui,eujáadquiri uma terra lá no Piauí. E tô indo formar lavoura lá, tirando Cerrado eplantando lavoura. Porque aqui não tem mais espaço para mim. E estousaindode500hectarespara2000hectares.Aíeuvouvendercapitalquead-quiri aqui, empregar lá e formar uma região novamente de agricultura,como foi formada aqui. Esse processo, por isso que eu iniciei lá no meu vô,começou em Portugal. Lá em Portugal aconteceu isso, nós fomos arrasta-dosparacá,SãoPauloexpulsouagenteparaoParaná, oParanánosexpul-sou para Mato Grosso, do Mato Grosso eu tô indo para o Piauí. Isso aí eu tôte falando meu exemplo, que serve para a grande maioria. (produtor rural,gaúcho, Alto Taquari). Essa relação de transformação do ambiente natural via agricultura, e alógica de colonização, que estimula que se esteja sempre em partida, em bus-ca de um local onde se encontre melhores condições para prosperar, tambémsão interpretadas como traços marcantes da “cultura do gaúcho”, que se con-trapõemàformadeserelacionarcomoambienteidentificadacomosgoianos:  a ambientalização dos conflitos sociais no centro-oeste brasileiro: desenvolvimento rural, violência simbólica e a conservação da natureza l. fleury y j. almeida 681
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